Zermatt – Subindo o Matterhorn da Forma Raiz

Dicas de Zermatt Subindo o Monte Matterhorn Suiça Alpes

        Muito mais famoso pelo formato do seu cume do que de fato pelo seu tamanho, o Matterhorn é a fronteira natural que divide a Suíça com o norte da Itália. Com os seus 4.478 metros de altura, é um dos montes mais altos dos Alpes.

        Início de Março de 2020. O novo coronavírus estava atingindo o seu ápice na Europa. A maioria dos países europeus estavam decretando quarentena total. O norte da itália estava completamente deserto e irreconhecível recheado de “cidades-fantasmas” inclusive Milão. Naquela altura o mundo ainda não tinha noção exatamente do estrago que o covid-19 ainda iria fazer, pois ao mesmo tempo que Itália e Espanha batiam recordes de casos diários, países como Brasil e Estados Unidos ainda registravam seus primeiros casos. Me deparei com a Suíça passando por uma adaptação ligeira para enfrentar essa situação: Pubs, restaurantes, bares, estações de skis.. Tudo fechando suas portas!

       Zermatt é a pequena e turística cidade suíça que dá acesso ao Monte Matterhorn ou também conhecido como Monte Cervino. É um dos lugares mais cobiçados não só da Europa, mas também de todo o mundo para os turistas, montanhistas, praticantes de esportes radicais (Ski – Snowboard) e por aí vai. É o que torna também Zermatt em um lugar extremamente caro e luxuoso. Só para se ter uma ideia, tem hotéis que oferecem serviço de “traslado” através de helicóptero para buscar seus respectivos hóspedes nas estações de trem das proximidades.

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Cidade de Zermatt e ao fundo o Matterhorn

        Passar uma noite em Zermatt no inverno pode custar um bom dinheiro independente de onde você vai ficar. Tudo costuma ser absolutamente caro: Hoteis, Hosteis, Pousadas, restaurantes, aluguel de equipamento para neve, tickets para os lifts (elevadores) e etc. Com o aumento de casos do novo coronavirus na Europa essa realidade estava por mudar.

       Nesse momento estávamos em Zurique. A ida a Nápoles na Itália tinha ido por água abaixo por causa do vírus, então tínhamos que mudar os planos em relação a isso. A pequena Eurotrip que havia sido planejada ficou reduzida simplesmente ao território suíço visto que todos os países estariam fechando suas fronteiras aéreas e terrestres devido ao surto.

      Estava consultando na Internet algumas possíveis ideias na cabeça para onde ir, foi quando me deparei com algumas ofertas “ridiculamente baratas” para passar o fim de semana em Zermatt. Lembro do meu amigo suíço falar:

       -Impossível! Está quase de graça! Esses valores no inverno! Não dá para acreditar!

     Não pensei duas vezes e confirmei a estadia para passar o fim de semana em Zermatt em reta final de inverno. Exatamente na melhor localização da cidade, bem no centro onde ficam as lojinhas e os principais restaurantes por um preço 6x menor em relação ao normal segundo meu amigo. O hotel era o Helvetia com direito ao café da manhã típico.

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Vista da janela do restaurante do hotel Helvetia

       Não seria minha primeira vez nesse lugar. Conheci Zermatt e o Monte Matterhorn em 2010 no verão, Apesar da época, estava bem movimentado de viajantes, havia apenas neve no monte e o restante das montanhas estavam com uma natureza bem exuberante e verde, depois disso sempre tive a vontade, ou melhor, a certeza de que voltaria um dia, e de preferência no inverno. Naquela época subimos os alpes através dos lifts (elevadores) até o famoso Glacier Paradise, é onde fica o observatório panorâmico de todo o lugar, principalmente do Matterhorn. Durante a subida através dos lifts, é possível observar, montanhistas subindo a pé através de diversas trilhas até o Matterhorn. Essa era uma grande vontade que eu tinha, de subir os alpes no “Pezão” se caso eu tivesse tempo naquela época.

Curtindo a vista ao lado do Matterhorn no Glacier Paradise

         Desembarcando na principal estação de trem de Zermatt, era possível observar ainda um certo movimento constante de viajantes apesar do surto do novo coronavírus. Os serviços turísticos ainda estavam funcionando normalmente como o passeio de trem que vai para Gornegrat e os lifts que ligam o Glacier Paradise. Então ficou combinado que faríamos todos eles no dia seguinte. Fomos direto para o  check-in no hotel Helvetia e depois procurar um lugar para almoçar.

         Uma curiosidade para quem ainda não sabe, a Suíça é um país muito multicultural. Zermatt por exemplo, nos hotéis e nos restaurantes existe uma “salada” de idiomas. Você acaba entrando em um restaurante onde todos só falam italiano e no restaurante ao lado só falam alemão e assim por diante. É como se pulássemos de um país para o outro em instantes.

      O movimento de pessoas / viajantes em Zermatt mudou de forma drástica da noite para o dia literalmente. Ruas ficaram desertas e serviços foram interrompidos como os passeios e lifts (Glacier Paradise). Tudo isso porque o governo Suíço (Federação) Anunciou medidas para tentar combater o covid-19.

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Centro de Zermatt que costumava ser bem cheio de viajantes
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Zermatt completamente deserta

       No dia seguinte. A cidade não era mais a mesma, poucas pessoas se via nas ruas, mas restaurantes ainda funcionavam normalmente atraindo os viajantes que restaram na cidade. Vendo que a ida até o Glacier Paradise estava arruinada, lembrei que essa seria a oportunidade perfeita para realizar aquele meu pequeno sonho lá atrás, de subir a montanha como um montanhista.

      Minha namorada decidiu ficar no hotel por questão mesmo de segurança, as temperaturas estavam bem abaixo apesar de um dia de sol com quase nenhuma nuvem no céu. Não seria a primeira vez que subo uma montanha da forma “raiz”. Já tinha subido há alguns anos com meu amigo Kurt em um percurso de quase 5 horas em Walenstadt, uma outra cidade suíça famosa pelas montanhas e pela prática daqueles loucos de Wingsuit (homens que voam).

     Bom, coloquei minhas botas especiais, preparei minha mochila, câmera fotográfica, mapa, garrafa de água e um canivete suíço é claro. E estava pronto para começar o percurso.

 

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A cada minuto ficava mais alto e mais frio
Começando o percurso

      O percurso até onde eu consegui chegar é muito exaustivo, existem algumas variáveis que o corpo e a mente têm que enfrentar: Frio, altitude, o próprio cansaço, neve e etc. Porém o cenário deslumbrante que se tem, no que faz lembrar um pouco filmes medievais como por exemplo Senhor dos anéis, tiram o foco das dores no corpo e nos obriga no bom sentido a esquecer as dificuldades do caminho. Por não ter quase ninguém durante o trajeto, pude presenciar um total silêncio por horas ouvindo apenas minha respiração ofegante a cada minuto percorrido.

      Sempre costumo traçar uma analogia entre estar no deserto e estar no oceano. Apesar de serem lugares totalmente antagônicos, o sentimento de estar neles é meio que o mesmo: Uma paz, um silêncio absoluto, não ter que escutar nenhum barulho do mundo lá fora. Já havia mencionado isso no post de Wadi Rum (o Deserto Vermelho da Jordânia) E no post da Grande Barreira de Corais da Austrália. Acho que a partir de agora posso incluir também “subir uma montanha” nessa convergência entre o deserto e o oceano.

 

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        Quanto mais subia mais devagar era preciso andar. A neve estava ficando cada vez mais densa no chão no que dificultava a passada. Nunca imaginei que levaria tanto tempo para chegar pelo menos razoavelmente perto do Matterhorn.

         Já fazia mais ou menos 3 horas de percurso. Naquele momento tinha eu ultrapassado mais de 2500 metros de altitude. Observava que algumas bifurcações da trilha em que eu estava, se encontravam interditadas por causa da quantidade de gelo. Com isso as opções estavam ficando cada vez mais limitadas. Minha orientação era apenas o mapa que eu tinha pegado no hotel porque o GPS do meu smartphone não estava pegando sinal corretamente.

      A neve densa e fofa do chão estava dando lugar ao piso congelado, ou seja, mais difícil pois com o chão escorregadio tinha que ter mais atenção. Em um momento de descuido, acabei escorregando e caindo de costas no chão. O resultado da queda foi infelizmente a lente da minha câmera quebrada e um rasgo na mão esquerda e já fazia algumas horas que estava andando sem encontrar ninguém pelo caminho.

       Uma coisa importante que acabei esquecendo de mencionar são os preços para se andar no lifts e assim chegar até o Glacier Paradise. Se estivessem funcionando o preço se eu não me engano seria por volta dos 80 francos suíços e o passeio de trem para Gornegrat é aproximadamente 110 francos suíços. Para chegar no Glacier Paradise é muito importante levar o passaporte porque lá no alto da estação o pessoal encarregado solicita, eu acho que é por causa da fronteira com a Itália e tecnicamente você estaria já do lado italiano.

 

       Entre os alpes cheios de neve, existem chalés e micro restaurantes cravados na neve. Mas tudo estava deserto e fechado, não havia mais ninguém ali.

      Com quase 4 horas andando e subindo sem descanso entre as montanhas de neve. Já tinha ultrapassado os 2800 metros segundo as sinalizações coloridas pelo caminho. Era o momento que eu estava percebendo que o final da trilha estaria bem próximo, observando claro a quantidade de gelo pelo caminho.

      Fim de trilha. Sonho antigo realizado. Consegui chegar bem no “pezinho” do Matterhorn. Infelizmente a quantidade de neve me impediu de continuar subindo, mas de qualquer forma fui recompensado com essa vista de uma das montanhas mais bonitas e famosas do mundo. A gratidão imensa por ter chegado pelo menos até aqui não me desanimaria ao lembrar de fazer todo o caminho da volta até Zermatt.

      Conclusão final que eu posso tirar disso tudo é que um lugar desse mexe com o que a gente achava que o mundo exatamente era. As vezes penso me perguntando quantos lugares desse existem no mundo que eu ainda não conheça, quantos momentos como esse. Num instante o mundo parece enorme, o que faz sentir de fato nossa insignificância, no que conheço tão pouco, e no tanto que tem por aí a fora para conhecer e explorar. De certa forma momentos assim mudam a gente, mas claro, se a gente deixar.

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